Por que estou esquecendo as coisas? Entenda o que a ansiedade quer te mostrar | Thais Malta
Artigo · Ansiedade

Por que estou esquecendo as coisas? Entenda o que a ansiedade quer te mostrar

Por Thais Malta 6 minutos de leitura Psicoterapia · Cognitivo-Comportamental

"Thaís, eu acho que minha memória está piorando."

Essa é uma frase que eu escuto com frequência nas sessões. E ela quase sempre vem acompanhada de medo.

Medo de que tenha alguma coisa errada. Medo de estar acontecendo algo sério.

Mas, antes de pensar no pior, eu costumo fazer outra pergunta.

Como anda a sua vida ultimamente?

Porque, muitas vezes, o problema não começa na memória. Está muito antes dela.

Você entra na cozinha. Para por alguns segundos. Olha em volta. Tenta lembrar por que foi até ali. Nada.

Você simplesmente não lembra. Sai da cozinha e continua o dia.

Mais tarde, pega o celular para responder uma mensagem. Abre o WhatsApp. Vê uma notificação. Entra no Instagram. Assiste a um vídeo. Lê uma notícia. Fecha tudo.

E, de repente, percebe que esqueceu completamente o que tinha ido fazer no celular.

Talvez isso já tenha acontecido com você. E, quando acontece várias vezes, é difícil não pensar:

"Será que minha memória está piorando?"

Ou, como muitas pessoas dizem:

"Eu estou esquecendo tudo."

Se essa pergunta já passou pela sua cabeça, eu queria te convidar a olhar para ela por outro ângulo. Muitas vezes, o esquecimento não é o problema e sim o jeito que o seu corpo encontrou de pedir atenção.

Esquecer nem sempre significa que sua memória está falhando

A gente costuma associar memória a uma espécie de gaveta. Como se o cérebro simplesmente deixasse de guardar informações. Mas, na prática, nem sempre é isso que acontece.

Para lembrar de alguma coisa depois, primeiro você precisa estar presente quando ela acontece. E é justamente aí que a ansiedade costuma interferir.

Você está lendo um e-mail. Enquanto lê, lembra da reunião de amanhã. Depois pensa na roupa que ficou na máquina. Lembra da conta que vence. Da mensagem que ainda não respondeu. Da conversa difícil que precisa ter. O e-mail continua aberto. Mas a sua atenção já foi para vários lugares.

Quando isso acontece, não é que você esqueceu. Muitas vezes, aquela informação nem chegou a ser registrada de verdade. É como tentar tirar uma foto enquanto a câmera está tremendo. A imagem até existe. Mas fica desfocada.

Afinal, ansiedade causa esquecimento?

Essa é uma dúvida muito comum.

A resposta curta é: sim, a ansiedade pode causar a sensação de esquecimento. Mas talvez não da forma como a maioria das pessoas imagina.

Quando estamos ansiosos, nosso cérebro funciona como se precisasse estar preparado para qualquer problema. Ele tenta antecipar situações. Imagina cenários. Busca soluções. Fica em alerta.

Esse mecanismo é importante quando existe um perigo real. O problema é quando ele permanece ligado o tempo inteiro. Manter esse estado de vigilância exige muita energia.

E, aos poucos, sobra menos espaço para prestar atenção ao presente.

Por isso, a relação entre ansiedade e memória gera tanta confusão. A memória continua funcionando. Mas a atenção fica sobrecarregada.

E, sem atenção, fica muito mais difícil registrar novas informações. É por isso que você pode sentir que está esquecendo tudo, quando, na verdade, sua mente está ocupada tentando lidar com preocupações demais.

Talvez o cansaço seja maior do que você imagina

Nem sempre o cansaço melhora apenas dormindo. Existe o cansaço de quem passa o dia inteiro resolvendo problemas, antecipando possibilidades, pensando no que ainda falta, lembrando do que não pode esquecer, controlando tudo o que consegue controlar e tentando controlar o que não consegue também.

Por fora, a vida continua. Você trabalha, cuida da casa, responde mensagens, resolve pendências.

Mas, por dentro, existe um esforço constante que quase ninguém vê. Depois de um tempo, esse esforço começa a aparecer de formas diferentes. Você perde a concentração, relê a mesma página várias vezes, esquece compromissos, sente dificuldade para organizar pensamentos e começa a acreditar que alguma coisa está errada com a sua memória. Quando, muitas vezes, ela só está cansada de funcionar em estado de alerta.

Viver no automático também tem um preço

Deixa eu te fazer uma pergunta. Quando foi a última vez que você tomou um café prestando atenção apenas no café? Sem olhar o celular, sem pensar na próxima tarefa ou sem organizar mentalmente o resto do dia.

Consegue lembrar? Ou até os momentos de pausa continuam ocupados por preocupações?

Às vezes, a gente passa tanto tempo tentando dar conta da vida que deixa de perceber que já não está vivendo de verdade. Os dias começam a passar rápido e as semanas parecem iguais. Sobra aquela sensação de que tudo aconteceu, mas quase nada foi vivido.

E isso não acontece porque a sua memória falhou. Mas porque você esteve ausente de muitos desses momentos.

Nem todo esquecimento é ansiedade

É importante dizer isso. Embora a ansiedade possa afetar a atenção e provocar a sensação de esquecimento, ela não explica todos os casos.

Se os esquecimentos aparecerem de forma intensa, piorarem rapidamente ou vierem acompanhados de alterações na fala, na visão, na força ou em outras funções neurológicas, procure avaliação médica.

Cuidar da saúde mental também significa cuidar da saúde física. Uma coisa não substitui a outra.

Então, o que pode ajudar?

Talvez você esperasse encontrar aqui uma lista de exercícios para melhorar a memória.

Mas eu acho que existe uma pergunta mais importante.

O que tem ocupado tanto espaço dentro de você?

Porque não faz sentido exigir que seu cérebro funcione como se estivesse descansado quando ele passa o dia inteiro tentando lidar com preocupações, cobranças e responsabilidades.

Dormir bem ajuda, criar momentos reais de pausa ajuda, reduzir o excesso de estímulos ajuda. Mas existe uma parte desse processo que, muitas vezes, não conseguimos fazer sozinhos.

É entender por que a sua mente sente que precisa permanecer em alerta o tempo todo.

É justamente aí que a terapia pode fazer sentido. Ela não vai ensinar você a lembrar onde deixou a chave. Mas ela vai te ajudar a compreender por que você está tão sobrecarregada.

Reflexão final

Quase nenhuma mulher chega na terapia dizendo:

"Thaís, eu acho que estou exigindo demais de mim."

Elas dizem:

"Estou esquecendo tudo."

"Minha cabeça não desliga."

"Eu não consigo me concentrar."

"Estou cansada o tempo inteiro."

E, aos poucos, a gente percebe que esses sintomas não surgiram de uma hora para outra. Eles foram aparecendo enquanto ela tentava dar conta de tudo.

Por isso, eu queria deixar uma pergunta para você.

Quando você diz que está esquecendo as coisas... será que o problema é só a memória? Ou será que faz tempo que você também tem se esquecido de cuidar de si?

Às vezes, o sintoma não é o verdadeiro problema. Ele é apenas a forma que o corpo encontrou para dizer que alguma coisa precisa de atenção. E você não precisa esperar chegar ao limite para começar a escutá-lo.

Dúvidas frequentes

Perguntas comuns sobre ansiedade e memória

A ansiedade pode causar perda de memória?

A ansiedade pode prejudicar a atenção e dificultar o registro de novas informações. Por isso, muitas pessoas têm a sensação de que estão esquecendo tudo, quando, na verdade, a mente está sobrecarregada.

Ansiedade pode causar confusão mental?

Sim. É comum sentir dificuldade para organizar os pensamentos, manter a concentração e tomar decisões durante períodos de ansiedade intensa.

Minha memória volta ao normal quando a ansiedade melhora?

Em muitos casos, sim. Quando a mente deixa de funcionar em estado constante de alerta, atenção e memória tendem a melhorar. Ainda assim, cada situação deve ser avaliada individualmente.

Quando devo procurar ajuda?

Se os esquecimentos estão causando sofrimento, prejudicando sua rotina ou vierem acompanhados de outros sintomas importantes, procure avaliação médica. Se perceber que a ansiedade tem ocupado espaço demais na sua vida, buscar apoio psicológico também pode ser um passo importante.
Próximo passo

Você não precisa lidar com isso sozinha

Se este texto fez sentido para você, talvez a pergunta mais importante não seja "o que está acontecendo com a minha memória?".

Talvez seja: há quanto tempo eu estou vivendo em estado de alerta?

A terapia é um espaço para olhar com mais calma para essas perguntas, compreender o que está por trás dos sintomas e construir formas mais saudáveis de lidar com o que você tem vivido.

Cuidar da saúde mental não significa esperar que tudo desmorone. Você escolhe prestar atenção em você antes que o corpo precise gritar para ser ouvido.

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Referências

  • American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR). American Psychiatric Publishing.
  • Beck, J. S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. Artmed.
  • Barlow, D. H. Manual Clínico dos Transtornos Psicológicos. Artmed.
  • LeDoux, J. Anxious: Using the Brain to Understand and Treat Fear and Anxiety. Viking.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Mental Health. who.int/health-topics/mental-health

thais malta

psicóloga · CRP 05/56374

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