Por que eu não consigo tomar decisões? Entenda o que o medo quer te mostrar
Existe uma coisa curiosa sobre as decisões difíceis. Elas raramente são difíceis apenas por causa da escolha. Muitas vezes, o que pesa é tudo aquilo que imaginamos que pode acontecer depois dela.
E é justamente aí que a ansiedade costuma entrar.
Não dizendo o que você deve fazer, mas tentando convencer você de que existe uma escolha perfeita. E que, se pensar só mais um pouco, talvez consiga encontrá-la.
O problema é que, enquanto essa certeza não chega, a vida continua esperando.
Algumas decisões levam poucos minutos, outras parecem ganhar um peso completamente diferente.
Responder uma mensagem, mudar de emprego, encerrar um relacionamento, aceitar uma oportunidade, começar uma terapia. Você pensa, faz listas, pesquisa, pede opinião, imagina todos os cenários possíveis, muda de ideia e volta para a primeira opção.
No fim, continua exatamente onde estava.
Se isso acontece com você, talvez já tenha pensado:
"Por que eu não consigo decidir?"
Mas será que a dificuldade está mesmo em escolher?
O medo de errar pode pesar mais do que a decisão
Quando alguém diz que tem dificuldade para tomar decisões, eu raramente penso apenas na escolha. Eu penso no que essa escolha representa, já que decidir significa abrir mão.
Ao escolher um caminho, você deixa outros para trás. E isso pode despertar insegurança. Especialmente quando existe uma necessidade muito grande de fazer tudo certo.
Ninguém gosta de errar. Mas algumas pessoas convivem com a sensação de que errar não é apenas desagradável. É quase imperdoável.
E, quando isso acontece, qualquer decisão parece grande demais.
A ansiedade gosta de criar a ilusão da escolha perfeita
A ansiedade costuma fazer uma promessa silenciosa.
"Se você pensar mais um pouco, vai encontrar a resposta certa."
Então você continua analisando, comparando, pesquisando e tentando prever o futuro.
Só que existe um problema: a maioria das decisões importantes da vida não vem com garantia. Você só descobre como elas vão se desenrolar depois de vivê-las. Esperar ter certeza absoluta antes de agir costuma significar apenas uma coisa: continuar esperando.
Às vezes, não decidir também é uma decisão
Essa é uma ideia que costuma causar estranhamento. Mas vale a pena pensar nela.
Quando você adia uma conversa importante...
Quando permanece em um trabalho que já não faz sentido...
Quando continua em uma situação apenas porque não consegue escolher...
Você também está decidindo. Só que está decidindo permanecer, ainda que não seja o que quer. Naquele momento, permanecer parece menos assustador do que mudar.
O curioso é que essa decisão costuma passar despercebida. A gente acredita que está evitando escolher mas, na verdade, já escolheu não sair do lugar.
E se o problema não fosse a falta de coragem?
Existe uma pergunta que gosto de fazer.
O que você acredita que aconteceria se escolhesse errado?
Algumas pessoas respondem:
"Eu perderia uma oportunidade."
"Eu decepcionaria alguém."
Há quem tenha medo de se arrepender ou de ser julgada. E há quem simplesmente não suporte a ideia de não ter controle sobre o resultado. Percebe?
A dificuldade não está necessariamente na decisão, talvez esteja no significado que você atribui ao erro.
Nenhuma escolha elimina completamente a dúvida
Existe uma expectativa silenciosa de que, quando encontramos a decisão certa, a dúvida desaparece. Mas a vida raramente funciona assim.
Mesmo depois de decidir, ainda podemos nos perguntar como teria sido o outro caminho. Isso não significa que escolhemos errado. Significa apenas que toda escolha envolve perdas e ganhos.
Aceitar essa realidade costuma ser muito mais libertador do que tentar encontrar uma decisão perfeita.
Então, o que pode ajudar?
Talvez a pergunta não seja:
"Como eu tomo a decisão certa?"
Talvez seja:
"O que faz essa decisão parecer tão perigosa para mim?"
Quando entendemos o medo que está por trás da escolha, ela costuma perder um pouco do peso. Isso não significa que decidir fique fácil, mas que a decisão deixa de carregar o tamanho de todos os medos acumulados.
É justamente esse tipo de investigação que a terapia permite. Não para decidir por você, mas para ajudar você a compreender o que torna algumas escolhas tão difíceis.
Reflexão final
Existe uma pergunta que aparece com frequência nas sessões:
"E se eu escolher errado?"
Com o tempo, ela costuma dar lugar a outra.
"E se eu passar a vida inteira esperando ter certeza?"
Essa certeza absoluta quase nunca chega e a vida não oferece garantias. Ela oferece possibilidades. E, às vezes, a ansiedade faz parecer que errar é o pior cenário possível. Só que permanecer paralisada também tem um custo.
Você deixa de viver experiências, de descobrir caminhos e de conhecer versões suas que só existiriam se aquela decisão tivesse sido tomada.
A coragem pode não ter relação com a ausência de medo, mas com aceitar que nenhuma escolha vem com garantia. E, ainda assim, seguir em frente.